Sons da Infância

Sons da Infância


Existem sons que marcaram a nossa infância. Comigo não foi diferente. Lembro claramente de dois sons que nunca mais os ouvi e sempre traz recordações.


Quando tinha meus 7 anos ou mais, isso lá pelos anos 60 existia um senhor, negro, que descalço descia, vindo lá das bandas do alto do bairro Sagrada Família em Belo Horizonte e descalço, com os pés rachados pelas andanças nas pedras de granito das ruas de então, com uma cesta de vime onde trazia, separadas em grupos cobertos por um pano bem branco de algodão, feitos de sacos de açúcar ou arroz, em cones feitos de papel enrolados de um lado fino para a borda grande, com umas 100 gramas recheados de amendoins torrados e salgados ou de amendoins torrados e moídos acrescidos de açúcar ou sal que chamava paçoca.


Quando anoitecia, eu estava brincando no alto da rua Barão de Cocais, onde morava, ouvia a sua voz que entoava o cântico anunciando a sua chegada:


OOOOOOOOO amendoim torradinhos”


Era num crescente, onde o OOOOO e amendoim vinha num tom que crescia no torradinho, sendo as últimas letras bem mais alto.

E quando eu tinha alguma moeda ou nota de pequeno valor ou minha mãe dispunha a me dar o valor necessário, corria para o homem do amendoim e comprava uma de suas guloseimas.


O amendoim torrado e salgado era muito gostoso, principalmente no fim do cone onde era encontrado os restinho do sal com gosto do óleo de amendoim. Já a paçoca era uma delícia mas tinha um terrível gosto de quero mais e eu sempre ficava sempre insatisfeito. Com o amendoim torrado era diferente o sal do final saciava.


Até hoje quando vou comer amendoim torrado eu lembro do homem negro com os pés grandes e descalços e que gritava:


OOOOOOOO amendoim torradinhos!” e minha boca enche de água.


Outro som que marcou a minha infância era o que na rua chamava de “vaquinha”.

Era um caminhão pequeno chevrolé, antigo mesmo para a época, que acredito ser importado, mesmo porque naquela época, final da década de 50, quando tinha 6 anos, que eu saiba não se fabricava caminhões no Brasil. A vaquinha era um caminhão pequeno, com a boleia pintada de verde bandeira onde a a carroceria tradicional fora substituída por um depósito cilíndrico que na sua parte traseira, onde saia o leite havia uma fascinante chave dupla que dava a passagem do cilindro para uma garrafa de um litro era daquelas garrafas que vendiam leite antigamente, feitas de vidro com o gargalo para baixo e que para mim misteriosamente ela se enchia de leite gelado que vinha do depósito e depois na segunda posição da torneira repassava para a nossa vasilha o leite na quantidade comprada. Um litro, meio litro ou repetindo ação dois ou três ou mais litros.

Esse leite vinha de uma usina de leite que existia na no bairro Floresta próximo ao viaduto de Santa Tereza que vai dar na Rua Sapucaí ao lado da Serrara Irmãos Pinto.

A dona da usina era uma cooperativa, CCPR, creio eu, que produzia também a deliciosa manteiga ITAMBÉ, que existe ainda hoje e que comprávamos em pacotes de 200 gramas, eu acho.

Embora eu sempre gostava demais de manteiga era um produto caro para as posses de minha família, principalmente depois na década de 60 quando a nossa sobrevivência ficou difícil.


Mas a vaquinha sempre por volta das 7 ou 8 horas, ligava a buzina anunciando a sua presença em nossa rua. Era uma buzina fina e contínua e parava no alto de minha rua próximo a minha casa na esquina com a rua -Bicas e de pijama ia até lá comprar o leite que seria consumido naquele dia.


Como era gostoso aquele leite gelado tirada da vaca metálica de nome chevrolé que berrava de modo inconfundível.


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