Escotismo uma lição para a vida.
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Em minha infância e adolescência tive o prazer de conhecer o Movimento dos Escoteiros do Brasil em Belo Horizonte. Entrei, se não falha a memória, por volta dos meus 10 anos e fui escoteiro até os 16 anos aproximadamente, hoje fazendo mais de 40 anos ainda me lembro dos seus princípios.
Participei do Grupo de Escoteiros Chefe Pereira, situado na Avenida Silviano Brandão no desembocar da Avenida Flávio dos Santos e esquina da Rua Antônio Torres, na Floresta. Lá havia um conjunto de lojas com essas portas de aço de correr, em uma delas funcionava diariamente a oficina de trabalho de tornearia mecânica do então Chefe Garcia.
Aos sábados a tarde, lá nos reuníamos, poucos escoteiros, todos de classe nédia baixa, filhos de trabalhadores formando uma tropa pequena com duas patrulhas, a Patrulha do Cão e a Patrulha do Leão, da qual sempre fiz parte.
Nossa Tropa era comandada pelo Chefe de Tropa José Luiz (rapaz novo e então comerciante de alimentos em um negócio de família lá na feira dos produtores). Além do Chefe Zé Luiz havia ainda outros menos freqüentes como o Chefe Wander (também cirurgião dentista e professor de cirurgia na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Minas Gerais), Chefe Garcia que já citei, e a figura carismática do Chefe Ministério, um senhor com mais de 50 anos e com muita sabedoria e paciência.
Lá conheci também pessoas ou crianças como eu, tornamos amigos muito próximos. Eles fizeram parte de minha infância e mocidade, que de uma forma ou de outra, participaram de minha formação. São eles Ênio Nonato de Oliveira, Vicente Augusto Jau, Saulo Clementoni Castro e Adônis Marcelo Saliba Silva.
Hoje na beirada dos 56 anos praticamente perdi o contato com todos eles. Um ano após minha formatura em Odontologia recebi um convite e mudei de Belo Horizonte, com minha esposa Elenice e minha recém nascida filha Graciela para Joaíma, interior de Minas no vale do Jequitinhonha. Nessa época tínhamos 24 anos e Graciela 9 meses.
As vezes ainda tenho notícias, poucas e esparsas dessa turma, vejo uma nota na Internet, Jornal, algum conhecido dá notícia, o certo é que todos eles tornaram cidadãos produtivos e homens de bem. Cada um cuidando de sua vida, com outras relações sociais, famílias e interesses.
Ênio tornou-se associativista, cooperativista e ativista político lutando pelos menos favorecidos no PC do B. Vicente estudou filosofia tornou-se professor universitário e epidemiologista da Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais. Saulo com extrema habilidade para as artes gráficas trabalhava com arquitetura e construção civil. Adônis engenheiro metalúrgico com enorme facilidade em aprender línguas, tomou o Esperanto como sua segunda língua e trabalha na CNEN – Comissão Nacional de Energia Atômica ou algo parecido. Outros escoteiros passaram por minha vida, mas não com tanto impacto como esses.
Por que dou importância ao Movimento Escoteiro?
Foi através dele que tive os primeiros contatos com ensinamentos e conceitos sobre ética, honra, cidadania, preservação da natureza, respeito, companheirismo, trabalho em equipe, camaradagem, pontualidade, compromisso, patriotismo, liderança, mérito, gerência, logística e mais.
Fora do escotismo e de alguns lares não se ouve falar destes valores para os jovens entre 10 e 18 anos. Não se aprende em escolas, igrejas, clubes, televisão ou na mídia de modo geral.
É para muitos um assunto chato. Não dá audiência. Os exemplos que se têm são de pessoas que se dão bem com o roubo, a corrupção, o assassinato.
Aqueles que só pensam em levar vantagens, em passar os outros para trás, no lucro fácil, no desrespeito ao trabalho e ao trabalhador, no clientelismo político e social, no tráfico de drogas, pessoas, órgãos, armas e influência.
Em quem os nossos jovens vão espelhar?
No Grupo Escoteiro Chefe Pereira a filosofia de vida era outra, veja, por exemplo, a Promessa que fazíamos:
"Prometo pela minha honra fazer o melhor possível para com Deus e minha Pátria, ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião e obedecer à lei dos escoteiros."
Não é preciso divagar sobre o que está escrito, releia devagar e pense!
Nessa promessa cita a chamada Lei dos Escoteiros, que elenco abaixo:
1.
O Escoteiro tem uma só palavra; sua honra vale mais do que a própria vida.
2.
O Escoteiro é leal.
3.
O Escoteiro está sempre alerta para ajudar o próximo e pratica diariamente uma boa ação.
4.
O Escoteiro é amigo de todos e irmão dos demais Escoteiros.
5.
O Escoteiro é cortês.
6.
O Escoteiro é bom para os animais e as plantas.
7.
O Escoteiro é obediente e disciplinado.
8.
O Escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades.
9.
O Escoteiro é econômico e respeita o bem alheio.
10.
O Escoteiro é limpo de corpo e alma.
Na lei acima podemos ver princípios de ética, companheirismo, comportamento, respeito, educação, economia e higiene e que aquelas crianças e adolescentes levavam absolutamente a sério.
Quando um escoteiro dava a sua "Palavra de Honra" era um acordo firmado, selado, intransigente, não havia mentiras, subterfúgios. Era a verdade inconteste!
E os nossos heróis?
Um sobressaltava, o Escoteiro mineiro Caio Viana Martins, que mesmo tendo sido acidentado num descarrilamento de trens resultante de um choque entre composições se recusando a aceitar o transporte de maca, que era escassa, e vendo pessoas que aparentemente estava pior que ele disse: " O Escoteiro caminha com as suas próprias pernas", dispensando a maca e caminhando junto com os outros, vindo a falecer em conseqüência deste episódio. Foi o exemplo máximo de desprendimento e amor ao próximo. Hoje na extremidade do Parque Municipal próximo ao do Palácio das Artes com Avenida Carandaí em Belo Horizonte há um pequeno monumento em sua homenagem dentre vários outros pelo Brasil a fora.
Aprendemos a amar e respeitar a Pátria e seus símbolos, hastear a Bandeira ao som do Hino Nacional por nós cantado, Hino da Bandeira, as armas da República. Alguns afirmam que o Escotismo militariza as crianças, acredito que sim, de forma positiva. Mesmo naquela época 1966 quando o golpe militar estava em pleno andamento, nunca em tempo algum, tivemos qualquer ensinamento ou intervenção da direita e muito menos de esquerda. Como escoteiros nos anos de chumbo, vale ressaltar que, eu, Ênio e Vicente fomos para a esquerda como ativistas políticos e lideres partidários, mas isso já estava distante dos tempos do escotismo.
Acho, mas não sou psicólogo, pedagogo, educador, então esses mestres me perdoe, que um pouco de rotina militar pode ajudar o jovem na fase caótica da adolescência. Horário, organização, compromisso, trabalho em equipe, educação, hierarquia, respeito e higiene são costumes que a tornam a nossa vida mais um pouco mais fácil.
Como se não bastasse aprendemos noções de ciências naturais (mineralogia, geologia, botânica, zoologia), astronomia, orientação pelos elementos naturais, primeiros socorros, técnicas de sobrevivência, construção, culinária, lavagem de roupas, montagem de acampamentos com objetos encontrados nas matas já no chão, fazíamos latrinas, cercas, porteiras, camas, fogões, cadeiras. Aprendíamos a fazer nó, a usar os nossos bastões, cantis, a montar as nossas mochilas, a calcular os nossos alimentos, a distribuir a carga. Aprendíamos a seguir trilhas, falar em público, liderar e ser liderado, contar estórias nas confraternizações do chamado fogo de conselho, onde sentávamos em torno de uma fogueira feita por nós onde cantávamos, teatralizávamos, ouvíamos conselhos dos mais experientes. E quando levantávamos os acampamentos, o campo deveria estar limpo e natural como nos havíamos encontrado. Tudo de forma rica, sem preconceito, inocente, sem maldades que hoje permeia os nossos noticiários.
Exponho essa experiência que tive neste blog para tornar pública a importância que o movimento de escoteiros teve em minha vida, uma forma de dizer muito obrigado as essas pessoas, que de forma desinteressada ajudaram a construir uma parte de meu caráter e quem sabe perpetuar a minha gratidão e esperança, de que, os conceitos que aprendi continuem a nortear e construir crianças e jovens.
A todos o meu SEMPRE ALERTA!
Leônidas Galbas Santos
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Adonis